Casa Grande & Senzala

24 fev

De onde nós viemos? Esse semestre tem revelado um estudo um tanto inusitado sobre quem nós somos. Formas, cores, sombras e um pouco da nossa alimentação.

Ontem eu estava no velho lugar onde todos passam, há 4 anos. Falávamos de assuntos diversos, quando recaí num velho problema. A dicotomia da Casa Grande e da Senzala. A Casa Grande sempre estará encrustada na classe média. Hora estaremos querendo brincar na Senzala, hora estaremos a negando, pois queremos consumir das benesses da Casa Grande.

Tenho saudades de Miudinho e Pitoco. Quando cheguei no Edson Queiroz em janeiro de 1986 a paisagem era bastante diferente de como hoje encontramos aquelas ruas. A minha rua ainda era de barro batido e no final havia um enorme descampado. Dali dava para ver a favela do Dendé.

Miudinho e Pitoco sempre apareciam no início da manhã e no final de tarde na rua, para pedir esmola, pedir água, um “pão pá comê”. Até que um certo dia, minha mãe cansou de dizer não e chamou-o para dentro de casa, foi conhecer a mãe dele, dizer que ia ajudar, ia ensiná-lo a trabalhar. E os ensinou a primeira coisa que o capitalismo nos ensina quando queremos algo. Trabalho em troca de salário. Trocou o pão para comer por uma varrida de manhã cedo. E, assim, ele todo dia passou a ter seu café da manhã.

Naquela época a gente vivia um país miserável onde essas crianças assim que acordavam corriam para rua buscar o desjejum. Tínhamos já entre 10 e 14 anos. Estávamos crescendo. No final da rua já tinha construído um muro alto, cercaram o terreno e dentro uma pequena casa morava Demian, sua irmã mais nova e seus pais. Brincávamos bastante no seu terreno, caçar calango, jogar bola e corta cana pra chupar o sumo doce.

Nas férias a rua era o ponto de encontro. Miudinho ainda era miúdo, Pitoco já chamávamos por Danilo, ele estava sempre estava lá em casa e minha mãe não gostava de apelidos. Foi ele que me ensinou a fazer pipa, cerol e soltar pião. Um artesão nato. Miudinho tinha uma visão mais aventureira da coisa. Do muro alto do terreno da casa de Demian, ele nos ensinou a quebrar o tijolo e escalar o muro dos seus 5 metros de altura, sem corda.

Tadeu era o filho da empregada da vizinha, que nasceu e se criou com as tiazinhas que moravam juntas na casa 30. Ele era mais velho e vivia dentro da favela. Foi ele que nos levou lá dentro pela primeira vez. Aquele mundo maravilhoso de becos longos e cheio de gente andando na rua e falando alto. A favela era linda. Tinha vida própria. Toda vez que eu entrava me lembrava de Aloísio de Azevedo explicando como era o Cortiço. O Cabeça de Porco nunca morreu de fato. Ele renasceu em todas as favelas que construímos.

O menino um dia cresce. E a gente cresceu. Quando a gente cresceu ficou chato. As verdades vinheram a tona, a inocência terminou. E eu não era da favela. Apenas morava do lado. Não podia entrar mais quando quisesse. Agora tinha briga de gangue. Porque menino tem que vira sujeito-homem. Lembro de uma última vez. Eu já com 17 anos indo comprar refrigerante na bodega da entrada da favela, na volta Miudinho jogou uma pedra de barro que acertou nas minhas costas e ele e seus amigos gritavam como quem estivesse expulsando a gente. Aquele era o território deles. Nunca mais voltei. 2 anos depois a gangue da rua do comércio desceu e foi na casa de Danilo, perguntaram por ele e ele disse que sim. Eu sou Danilo, por que? O sujeito disparou 5 tiros no peito do meu amigo.

Acredito que hoje essa história teria terminado diferente. Mas no século passado, as coisas estavam bastante claras. E, a classe média não queria conversar com a favela. Resolvi seguir um caminho em que eu pudesse mudar isso. Não por Danilo, mas por mim. Aquela pedra de barro doeu tanto.

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