Público versus Privado

26 dez

O que é a esfera pública e até aonde vai o espaço privado? Há alguns tempo houve um debate fervoroso se a vida particular de um escritor deveria ser exposta na sua biografia. O que de fato é relevante para o público? Sua obra ou suas puladas de cerca?

Na verdade a questão mais complexa que iniciamos essa pequena reflexão é; o que é o público? Qual a esfera pública? Quem são os personagens ou atores sociais que interferem na construção do espaço público?

Quando Ginzburg (1976) “perguntou” a Menocchio o que ele estava lendo, no início da era Moderna para ser condenado pela Santa Inquisição, Ele  não estava fazendo uma pergunta de curiosidade sobre sua intimidade. Naquele momento, descobrir o tipo de leitura de um moleiro em pleno século XVI era desvendar a forma como um campesino pensava sobre Deus e o Universo. Os primeiros preâmbulos de um mundo que começa a questionar o poder secular da igreja.

Saber os tipos de xingamento que um garoto faz para um homem que não compactua dos seus ideais não é a questão.

Vainfas (1996) percebe nos primeiros volumes do livro “História da Vida Privada” organizado por G. Duby que:

“A primeira questão que certamente nos ocorre diz respeito à licitude do objeto tal como é concebido, ou seja, como esfera da vida social necessariamente presente em todas as sociedades e períodos históricos, da Europa à Africa Romana, da Antigüidade aos nossos dias. Duby se antecipa a tal questionamento no próprio ‘Prefácio’ e, não obstante reconheça que o conceito de privacidade só adquiriu consistência ‘em tempos bem recentes’ – o século XIX -, sugere haver numerosas evidências de que no próprio vocabulário de épocas passadas exprimiu-se ‘o contraste, claramente detectado pelo senso comum, entre o privado e o público'”

Por recentemente, definirmos a ideia de privacidade, também nos damos o direito de escolher não tornar público aquilo que preferimos guardar a sete chaves. Diferente de algumas práticas culturais percebidas por Duby na antiguidade.

Por que eu quero chegar a esse ponto e cito um bate boca no início da questão? Na antiguidade, mas precisamente, no Império Romano, todos os homens e mulheres faziam cocô juntos, se chamava até o amigo para ir naquele momento para discutir os problemas da comunidade. Todavia não conheço nenhum relato que no final, os amigos iriam conferir o tamanho do cocô alheio como método comparativo. Por que cargas d’águas adoramos saber do xingamento, da traição, do tabefe, de tudo aquilo que não é nosso? Só por que foi no espaço público? Voltamos a questão do banheiro, o banheiro é público, mas ninguém está fazendo questão de ver o cocô do outro. Então, por mais que a particularidade seja feita em esfera pública, qual o nosso direito de publicizar, debater, atacar, defender… emitir qualquer tipo de opinião sobre a vida privada?

Sei que alguns historiadores da antiguidade podem até me recriminar por ter feito essa alegoria. Todavia foi a melhor forma que encontrei de criar um susto momentâneo na leitura e evidenciar que vivemos um momento em que buscamos muito mais saber da vida alheia do que entender nosso contexto.

Há alguns meses fiz uma análise sobre o comportamento do brasileiro no seu cotidiano e criei uma situação hipotética. Fui parado por onde andei nos dias posteriores por pessoas que reconstruíram a história da forma que a convêm. Alguns recriminaram, outros apoiaram. O fato é que como não citei um caso, apenas sugeri uma situação, todos buscaram criar ou identificar uma situação.

O motivo está bastante relacionado a pergunta de Ginzburg. Ninguém quer saber porque ele lia aquilo. Apenas queremos saber o que ele lia. Trocamos a questão de como sua leitura interferia no seu cotidiano e passamos a perguntar a quem ele repassou os livros. Reduzimos a reflexão da informação, ao reduto da fofoca. O fato em si deixou de ser importante, a picuinha é o que importa.

 

Um velho Capitão

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Uma resposta to “Público versus Privado”

  1. Jader Vieira 14/01/2016 às 1:36 pm #

    Esse conceito de vida pública e privada nada mais é que a relação entre a superstrutura e a exteriorização da cultura, ( as formas publicamente sancionadas de consciência encarnadas na arte, na religião, na jurisprudência, na filosofia e na literatura de uma época) e o comparativo relativo com a praxis dos homens( que segundo Marx, é por sua vez determinada pelos modos de produção e interesses do grupo que os controla).
    Os estágios pelos quais todas as culturas devem passar salvo a hebraica e a cristã que gozam de benefícios de iluminação divina nos princípios que as governam, Giambastiste Vico vai caracterizar três idades: dos deuses, a dos heróis, e a dos homens, em cada uma dessa idades, os homens estabelecem uma relação especifica com a natureza baseada em seu conceito de mundo natural e social e em cada época é refletida nos tipos de instituição que constroem para satisfazer as suas necessidades. Ou seja, no tempo dos deuses, Afrodite mentir, dissimular, roubar para ser considerada na disputa pela maça de ouro a mais bela do Olimpo num tá dizendo nada(Ela pode). No tempo dos heróis dizer que Aquiles chacinou, latrocinou, mentiu, adulterou também não tá dizendo nada(Ele pode). Agora no tempo dos homens, da moral conservadora e do bons costumes, dizer que alguém mente, ou rouba para vencer um concurso ou que traí a esposa está dizendo muita coisa porque fere os bons costumes, ou que ; Porque segundo o próprio Vico a relação com a cultura no tempo dos homens não pode ser passional, ou seja no tempo dos deuses e dos heróis eles agem como feras porque seu comportamento é análogo a imaturidade das crianças nos quesitos morais, eles erram porque o erro é derivado de uma consciência ingênua que não pode aprender as virtudes cívicas da boa convivência.
    Eu acho perfeitamente justo que as pessoas imaginem de antemão que a posição privilegiada de alguns homens deriva de sua honra, de sua responsabilidade, das virtudes do seu caráter e da sua disciplina, ou que alguém que é tido como sábio e guardião da fé seja uma pessoa virtuosa, por isso que ao saber que algum desses sujeitos que desfrutam dessas lisonjas não passam de bêbados, arruaceiros, adúlteros e buscam prazeres particulares a expensas dos bens públicos e de dízimos dos fieis é perfeitamente licito que a reputação dele vá a zero. Agora o povo é obrigado a sustentar vicio de vagabundo?
    A maior raiva do Menochio no queijo e os vermes é o de justamente de ser proibido de ter seu próprio moinho, ser obrigado a moer seu trigo no moinho da igreja e ainda ter que pagar uma sobretaxa por estar usando o moinho que é obrigado a usar pela lei. Ele é perseguido pela Inquisição porque ele questiona isso, e a Igreja sente temor de perder seus privilégios nas sobretaxas agrícolas em cima dos produtores de trigo. Porque o moleiro vai ler tanto para descobrir um discurso que questione os dogmas da igreja por isso ele vai sair por aí dizendo que a Igreja está errada em dizer que Maria é virgem, ou que o papa é infalível que é pra as pessoas de alguma maneira abrirem os olhos que o clero é muito é azilado por $$$$$$$$$$$$$$$$$$. O que lhe vai custa um preço muito alto… porque também não sei que prazer é esse que o pessoal ver na delação. O único instrumento que os Inquisidores tinham para perseguir as pessoas de bem. Porque um homem que nunca matou, nunca roubou, sempre trabalhou fora condenado a morte igual a qualquer bandido.

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