Bangalô em Fortaleza

6 mar

Devido a uma questão que aparece de forma pertinente sobre nomenclatura das edificações na história da arquitetura do Brasil no início do século XX, resolvi fazer uma pesquisa para tirar as dúvidas sobre.

Sempre tive essa ideia do que era um bangalô, uma construção de madeira e palha com o assoalho elevado a beira mar, como podemos observar abaixo:

:

O modelo de bangalô nasce para a percepção ocidental com a colonização da Índia, pelos britânicos no final do século XVIII. Fui atrás de ver como deveria ser esse modelo atualmente na Índia e adjacências e acabei descobrindo esses tipos recentes de bungallows:

Esse encontrado (acima), em Batu Feringhi,Feringhi Villa,Penang. Malaysia. E esse (abaixo):

fagu_tea_bungalow

no Noroeste da Índia.

No Brasil, os bungallows demonstravam uma diferença no estilo e na construção. Eles se nortearam pelo modelo britânico no final do século XIX.

Uma das coisas mais interessantes e instigantes de estudar história da arquitetura é perceber como o homem na sua condição de ser cultural altera demasiadamente estilos e características arquitetônicas. E pela falta de nomes acabam por cunhar termos homogêneos em possibilidades diversas. Sempre bom salientar a importância de perceber a periodização das análises.

segundo Maristela Janjulio (2011), doutorando em história da arquitetura pela USP:

As principais condições para a criação dessa cultura urbana surgiram nas três décadas anteriores a 1914. Por todo o mundo, as novas tecnologias estavam sendo introduzidas, assim como circulavam ideias sobre sanitarismo, habitação, planejamento e saúde. Uma nova cultura, que se expressava não apenas em termos econômicos, sociais e políticos, mas também espaciais, deixava sua marca nas cidades e na maneira de viver de seus habitantes.”

o modelo de construção estava em franco processo de alteração no mundo, baseado nas novas necessidades de infraestrutura urbana. Isso já bastava para mostrar que a concepção construtiva havia mudado no Brasil. Todavia, cometeríamos um equívoco de analisar o caso de São Paulo baseado, unicamente, no modelo inglês como copismo, importado da Índia no século XIX e sua relação com o neocolonialismo. Os bangalôs no Brasil chegam para nutrir uma necessidade da burguesia que tentava criar uma nova tradição. Vale lembrar que E. P. Thompson em seu livro Costumes em Comum ressalta a necessidade da burguesia em inventar tradições. Construir uma residência particular foi um dos meios que a burguesia nascente em São Paulo se preocupou em ter, para demonstrar uma nova tradição

O caso de Fortaleza é mais interessante, pois como cidade periférica, longe dos grandes centros urbanos do Brasil, a cultura ainda era de uma sociedade proto industrial e de um forte apelo para o comércio. Na verdade, Fortaleza estava ainda longe da condição burguesa, mas muito mais próximo de uma classe média insurgente e poderosa. Se pensarmos de forma conceitual.

Quer dizer: a classe média fortalezense recriava os modelos da burguesia brasileira mediante suas necessidades e sua vontade de afirmação. Aqui não era uma questão simples de inventar tradições. Acabava copiando e adicionando novas marcas.

Em São Paulo, os bangalôs surgem em áreas de novo loteamento da burguesia e pela adição do carro na vida desses burgueses, ficava ainda mais atrativo, o afastamento da cidade. Como mesmo observou Maristela Janjulio (2011):

“A arquitetura do Jardim América representou um novo padrão de moradia. Apesar da aparência externa bastante variada, se outro aspecto for levado em consideração, ela constituiu uma unidade: é uma nova forma de morar — moderna —, para a qual o bangalô foi um dos modelos, e os subúrbios, o cenário”

como podemos ver na casa abaixo, da rua Equador, demonstrado por Janjulio:

Bangalô Rua do Equador

Há uma integração entre jardim, terraço e a casa. O uso de madeiras em formatos geométricos nos detalhes da casa dão uma sensação mais aconchegante para a fachada.

Na cidade de Fortaleza, áreas que tendiam a esse comportamento descrito por Janjulio, podemos citar o Jacarecanga e o Benfica, posteriormente, o bairro dos oiticeiros, mas tarde Aldeota.

Se fizermos um comparativo no traço do bangalô paulistano e o bangalô fortalezense veremos algumas similitudes. Basta olhar o bangalô de Aristides Capibaribe:

bangalo de aristides capibaribe

o caso, da forma do desenho, o uso da madeira nas janelas leves e com veneziana, a pequena elevação e o avarandado lateral que dar um ar íntimo para a casa. O uso da geometria da art decó que já estava em voga no mundo, é um fator que podemos inserir nessa análise. Para Fontana, Santos e Ghirardello (2012):

“no Brasil, o ecletismo foi fortemente manifestado no início do século XX, por conta da continuidade de influências européias que perduram devido a colonização do país feita pelos portugueses. Este era um momento de renovação. Outra tendência estilística que se revelou nas habitações mais como uma manifestação decorativa do que construtiva, foi a expressão popularmente chamada de art déco. Que adotou uma tipologia de fachada futurista, menos rebuscada, com linhas estilizadas e geométricas, utilizado principalmente para mostrar modernidade à cidade.”

Fator importante para acreditar que a art déco apenas serviu como detalhamento de fachada das casas, numa mistura de conceitos bastante idiossincrática da cultura local. Como podemos ver no Bangalô Aristides Capibaribe e na Escola de Artes e Ofícios de Fortaleza (abaixo), as duas edificações no bairro do Jacarecanga.

escoladearteseoficios

Sobre a parte interna das casas, podemos citar Janjulio (2011):

“Em muitas dessas casas, a sala de estar, ligada por um arco à sala de jantar, substituiu a antiga e enclausurada sala de visitas, como também ocorrera nos Estados Unidos. Nos dias quentes, a varanda atuava também como ambiente de estar. O próprio jardim apresentava equipamentos para favorecer a permanência, constituindo-se em outro ambiente onde a família se reunia”

Para fazer o contraponto de observação na pesquisa feita pelos meus alunos na rua Visconde do Rio Branco, em setembro de 2014:

detalhe casa sala

o detalhe da passagem da sala de estar para a sala de jantar, o arco é alterado para um desenho trapezoidal. Essa de ligação dos dois espaços se mantém comum nas casas da cidade de Fortaleza, com inúmeras variações.

Como explica Carvalho (2008) a respeito do uso do espaço interno das casas:

“Os segmentos médios foram, em São Paulo, o público-alvo predileto dos conselhos e campanhas publicitárias que previam o enfraquecimento da sala de visitas como zona de representação social e o seu fortalecimento como área de convívio familiar, íntimo e confortável, segundo o modelo inglês do living room”

A casa fortalezense é, de fato, construída para a classe média abastada resultante da força do comércio. E, segue o modelo de divisão do espaço interno de área de convívio da família.

A grande dificuldade de entender o estilo das casas de Fortaleza na virada do século XIX para o XX é perceber que os movimentos neoclássicos, século XVIII, o ecléticos da segunda metade do século XIX chegam juntos com as tradições inventadas de uma classe média. Essa mistura casa bem com a vontade de Fortaleza adentrar de vez na internacionalização da arte moderna. Bem percebido no olhar de Sebastião Ponte no livro Fortaleza Bellé Époque (2000).

Acredito que a grande questão aqui é demonstrar a possibilidade do estilo arquitetônico sofrer variações devido a cultura e condição social dos indivíduos. É impossível ter um estilo purista. Pontuar o purismo é tentar negar a diversificação cultural que criamos mediante a capacidade inventiva do povo.

Referencial Bibliográfico:

A. Fontana, K. Santos e G. Ghirardello. Resgatando o patrimônio arquitetônico dos bangalôs do início do século XX: influência européia no Brasil. XI Congreso internacional de rehabitalitación del patrimonio arquitectónico y edificación, 2012. in: http://www.todopatrimonio.com/pdf/cicop2012/11-actas_cicop2012.pdf

Maristela da Silva Janjulio. Bangalô – subúrbio: a circulação internacional de uma cultura da habitação no início do século XX. OCULUM ENSAIOS 13: Campinas – São Paulo, Janeiro/Junho 2011

V. C. Carvalho. Gênero e artefato: o sistema doméstico na perspectiva da cultura caterial — São Paulo, 1870- 1920. São Paulo: Fapesp, 2008.

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