Um patriotismo anacrônico…

1 jul

Um patriotismo anacrônico, esse foi o melhor termo que escutei nos últimos dias a respeito da copa. O hino nacional cantado a capela em plenos pulmões e uma presidenta vaiada e xingada dentro de um estado democrático de direito e liberal.

Esses fatores já seriam suficientes para debruçar horas e horas de diálogo fervoroso sobre a formação das identidades nacionais. Todavia, um debate já ultrapassado pelo menos 10 anos. Ritmo vencido.

A questão nacional seria um fator decisivo na formação final do Brasil da década de 1930, segundo HOBSBAWM: ““A imaginária comunidade de milhões parece mais real na forma de um time de onze pessoas com nome. O indivíduo, mesmo aquele que apenas torce[aqui provável, um erro de tradução, espectador seria a palavra certa e conceitualmente encaixa na questão, grifo meu], torna-se o próprio símbolo de sua nação.” (1991, p. 171). Getúlio Vargas financiou e organizou a seleção de 1938 que iria disputar o mundial. Numa seleção marcada pela tentativa de fomentar essa unidade nacional ainda tão sonhada, observou Plínio Negreiros:

“A aproximação do início da Copa do Mundo de 1938, fazia com que cada setor da sociedade brasileira, articulados pela CBD e pela imprensa, envolvia-se cada vez mais com o futebol, como se toda a nação estivesse naquele momento representada. Da madrinha da seleção Alzira Vargas, passando pelo embaixador brasileiro na França, por todas as autoridades públicas que doaram dinheiro para a delegação, além dos empresários, das atividades econômicas privadas, nacionais ou estrangeiras, chegando ao mais simples torcedor. A nação, unida, mostrava-se de prontidão, atenta para enfrentar os inimigos que viessem pela frente; a unidade nacional construída a partir do futebol, revelava a força do Brasil, que manifestava-se apontando a total falta de temor diante de inimigos tão fortes. E essa unidade nacional havia sido forjada de tal maneira, que foi capaz de não deixar nenhum brasileiro de fora, mesmo aqueles que possuíam pouco ou nenhum interesse pelo futebol, esporte tão criticado por setores da imprensa e por teóricos da Educação Física, que o associavam à deseducação popular, à violência e á desordem” (NEGREIROS, 1997, p. 219)

Agora,  o momento atual, mostra-nos um ex-presidente ocupando o papel de Vargas e uma presidenta sendo a madrinha dessa união identitária. A unção dessa nova identidade passa pelo aspecto de uma reorganização da classe trabalhadora em prol de um projeto de governo que ainda não vingou. Uma imprensa golpista que tenta tirar a percepção de estabilidade social distorcendo fatos. Uma uma elite “Mion-esca”, que torce e abraça a tentativa de derrubar um governo popularesco (para evitar termos inadequados).

E os intelectuais? Esse é o grupo mais perdido no tiroteio que vivemos. Mais perdidos que cegos. Os intelectuais não conseguem encontrar função social, ainda baseado no sonho de ser a solução para os entraves desse re-arranjo não entendem que as classes exploradas começaram a resolver seus problemas nessa negociação com o governo sem o auxílio deles. E, vale ressaltar, que nessa negociação os trabalhadores estão perdendo ou sofrendo os despautérios dos acordos unilaterais forçosos do mercado especulativo e empreiteiro brasileiro e internacional. Todavia, mesmo assim, não estão e nem estiveram esperando soluções advindo dos intelectuais.

Como escutei outrora, e respondo, se existe uma culpa, por torcer, essa é exclusiva desse grupo que não sabe o que fazer com suas ideias. Eu, particularmente, em nenhum momento me senti culpado por falar que iria torcer pela seleção. E, faço isso veementemente há vida toda, desde que meu pai, quando eu ainda menino véi, deu-me um livro sobre a Copa de 1970. Sobre a melhor seleção que o mundo viu jogar. Sobre a primeira seleção que ganhou 6 partidas para ser campeã do mundo. Sobre Pelé, Tostão, Rivelino, Gérson, Jairzinho e Carlos Alberto Torres (nosso eterno capitão). Não existe culpa em torcer pelo futebol bonito. Saber distinguir o futebol das questões sociais deveria ser um princípio para esse debate. Uma coisa é uma coisa, outro coisa, é outra coisa.

E sobre o anacronismo?! A questão está exatamente no equívoco de 1970. Essa copa não é relacionada a forja da identidade nacional militar. Não são 90, nem 200 milhões em ação. O coro da capela não enaltece o estado, pelo contrário, tenta destitui-lo. A identidade em questão está sendo forjada no asfalto pintado da periferia brasileira que abraça o sonho verde-amarelo do ex-presidente torneiro mecânico. Não há as bandeirolas nas ruas da classe média, esta foi ao estádio vaiar a madrinha, fazer coleção de copinhos de cerveja da patrocinadora do evento e tirar algumas selfie; ser bacana na festa popular.

A classe obrera ainda está buscando o seu lugar ao sol e a sombra (GALEANO, 2004). É sintomático, pelo menos em Fortaleza, organizada ou não, perdida ou não, estarmos tendo no meio da festa das empreiteiras, uma greve dos trabalhadores da construção civil. Silencia a grande mídia. Não está preocupado os intelectuais. De fato, isso é sintomático. Getúlio Vargas está mais vivo do que nunca. E o presidente que nasceu dos sindicatos pelegos em meio a uma estado de excessão é reflexo disso. Vivemos ainda num processo que não está solucionado, desde a criação da CLT. Ela apenas escondeu um problema latente. Ainda tentamos resolver o problema de um Brasil que embarcou naquela paz armada do Estado Novo.

 

 

apenas umas ideias a esmo,

nada por completo…

 

 

O velho e futebolístico Capitão.

 

 

referencial bibliográfico:

  • GALEANO, Eduardo. Futebol ao sol e a sombra. São Paulo: L&M Pocket, 2004
  • HOBSBAWM, Eric J. Nações e Nacionalismo desde 1780. Programa, mito e realidade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991

  • NEGREIROS, Plínio José L. de C. Futebol e Identidade Nacional: o caso da Copa de 1938. In: Coletânea do V Encontro de História do Esporte, Lazer e Educação Física. Ijuí: Editora da UNIJUÍ, 1997.

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