No tempo em que andávamos inocentemente à pé

6 maio

A História que se segue é fruto de uma memória passada da minha vida e minha adolescência em Fortaleza. Queria apenas compartilhar um pouco dos dias e dos lugares que meu filho não vai reconhecer. O texto abaixo é parte resumida de um artigo que ainda estou em fase final de produção. Todavia já vou deixando o gostinho do que está por vir.

Rodrigo M. S. Pinto

Cheguei em dias diferentes, da última lembrança fica uma pacata sensação de paz. Essa sensação, provável advém de amargurada panacéia que construímos por memórias outrem vividas pelos homens que nos exilaram da realidade. O conforto e a tranquilidade vivida foram conquistadas pelo bêbado de chapéu côco (BLANC, 1979). Essa amargurada droga estava longe da desvairada São Paulo, “Nessa poética aberta(…) que os surrealistas pregavam como forma de liberar as zonas noturnas do psiquismo” (BOSI, 1994), começa essa micro-história (GINZBURG, 1989).

Vivi uma cidade que andávamos a pé. Não no tempo em que as ruas foram criadas para os homens.  A História que está por vir fala de dias que homens e carros já doutrinados por regulamentações de trânsito e boa convivência já reconheciam seus lugares.

Abri o portão da minha casa por volta das catorze horas para ver se já havia alguém por lá. Eu era de um tempo que íamos para a rua para conversar, encontrávamos debaixo da árvore da casa dos Pirritas. Naquele início de tarde, abri o portão de casa e encontrei com Daniel. Ele disse que estava precisando pagar o cursinho. Nossos pais costumavam mandarmos resolver pequenos problemas administrativos educacionais. Dar-nos um pouco de responsabilidade e autonomia. Com dezesseis anos e o vizinho com seus dezessete, resolvemos fazer o mais prático e divertido, ir a pé até o cursinho.

Morávamos na rua Adail Teixeira, no bairro do Edson Queiroz. Fortaleza ainda estava se organizando em tamanho em bairro, meados da década de 1990. Pouco consigo lembrar de como era tudo ali, mas caminhamos até a saída do bairro, a rua que levava para avenida Washigton Soares era ladeada por vários cajueiros. Hoje jaz para dar lugar ao enorme Fórum Clóvis Bevilacqua, inaugurado em 12 de dezembro de 1997.

Planta nativa da região, o cajueiro ainda é motivo de conglomeração para as tribos autóctones do Ceará. “À sombra de um cajueiro, entoam orações os pajés. Junto ao tronco da árvore, pedem força ao Pai Tupã, aos encantados, aos ancestrais. Todos dançam uma roda de toré e bebem mocororó, bebida ritual que provém do fruto do cajueiro” (BRISSAC, 2008).

Como quem não quer nada, quase duas décadas depois o novo tribunal, agora o Regional Eleitoral derrubou algumas centenas de árvores. O projeto foi aprovado e entregue ao TCU em 15 de outubro de 2013. Não houve dança que desse jeito nessas últimas duas décadas no meio do bairro da água fria. Caíram milhares de plantas nativas em prol do progresso. Nenhum cajueiro foi replantado pela iniciativa humana.

Saímos eu, e meu vizinho, passamos pelo shopping center Iguatemi, avenida engenheiro santana júnior, subimos a antônio sales e dobramos a direita na antiga estados unidos. Lembro que Daniel sempre preferiu chamar a avenida de estados unidos, em deferência ao senador Virgílio Távora. Sobre as nomenclaturas, nunca entendi bem essa mudança e a escolha da avenida ser ligada a título de senador, eleito em 1970 e depois indicado por Geisel em 1978. Carreira político militar. Como, também, nunca entendi o motivo da manutenção do mausoléu Castelo Branco. Como várias leis que se mantiveram do período. “São daquela época, por exemplo, as atuais estruturas tributária, administrativa e financeira do país. E mesmo após a Constituição de 1988 definir como pilares do Estado brasileiro a democracia e o respeito aos direitos humanos, seguem em vigor normas e práticas que, segundo especialistas, contrariam esses valores” (FELLET, 2014). Ficamos presos a forma de pensar de um estado autoritário, burro e burocrático. Como seria possível falar em estado liberal se vivemos amarrados as estruturas da ausência de estado de direito?! Essa sempre foi minha questão diante da manutenção da lei da anistia. Como os próprios militares dizem, ela permite a transição pacífica entre ditadura e democracia. Um bom motivo para manter a ode ao estado da opressão. Sobre a edificação, alguns até argumentam que o mausoléu é uma referência a arquitetura moderna. Para mim, apenas uma tentativa eufêmica de minimizar a memória da opressão. Ponto.

Logo ao dobrar na Avenida Estados Unidos, do lado direito de quem desce sentido mar, em uma casa que hoje é a Ceará Rádio Clube S/A, era o cursinho. número 2279. Fizemos o pagamento e continuamos a decida até a avenida Dom Luís. Ao dobrar na avenida, caminhamos alguns quarteirões e desistimos da andança, já era tarde. Hora de voltar para casa, pegamos um ônibus e fomos para o terminal do Papicu. O terceiro terminal construído e entregue em julho de 1993. O projeto dos terminais foi elaborado no governo da prefeita Maria Luiza e implementado pelo prefeito Juraci Magalhães. Ele levou os louros de uma mudança radical na vida cotidiana do trabalhador fortalezense. Hoje com o sistema saturado e sem nenhuma reforma e ampliação, distancia a amplitude social que o projeto acolheu. Essa foi, provavelmente, a reforma que provocou no imaginário do trabalhador local uma aproximação e garantia da eleição de Antônio Cambraia, apadrinhado político de Juraci Magalhães, como sua volta e re eleição.

Das andanças que fiz mais jovem, essa sempre tem um gosto bom, da longevidade das passadas e de um momento que acreditávamos poder ir além da nossa esquina despreocupados. Foi um custo caro que pagamos, tanto para se ter essa sensação de paz, oriundo dos anos de chumbo, como da incerteza que Fortaleza começou a sofrer com seu crescimento desenfreado da década de 1990.

 

Referência Bibliográfica:

BLANC, Aldir. O bêbado e a equilibrista, 1979.

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Editora Cultrix, 1994.

BRISSAC, Sérgio. O canto dos pajés na sombra dos cajueiros. Disponível em: http://diariodonordeste.verdesmares.com.br/cadernos/regional/o-canto-dos-pajes-na-sombra-dos-cajueiros-1.552132.  Acesso em: 27 de abril de 2014.

FELLET, João. 29 anos após democratização, leis da ditadura seguem em vigor. Disponível em: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/03/140322_leis_ditadura_mdb_jf.shtml. Acesso em: 28 de abril de 2014.

GINZBURG, Carlo. A micro-história e outros ensaios. Rio de Janeiro: Bertrand. Brasil, 1989

 

Um velho e saudoso capitão

#bairro #memória #fortaleza #anos90

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