“A Importância de Dostoievski na Literatura” um texto de Vergílio Ferreira, in “Situação Actual do Romance”, Março 1964

25 abr

Os dois grandes monumentos do romance que o século passado (XIX) nos legou, ou seja aqueles em que poderemos reconhecer-nos, foram os erguidos por Tolstoi e por Dostoievski. Mas se a lição do primeiro foi facilmente assimilada, a do segundo levou tempo – e tanto, que só hoje acabámos de entendê-la bem. Significa isto que Tolstoi, com incidências menores de moralização, continua um Balzac, é bem do século XIX. E foi por se pretender à força ligar a esse século também um Dostoievski que ele só tarde se nos revelou, para dominar ainda hoje, diga-se o que se disser, todo o romance europeu. Para usar uma expressão que já usei, não com inteira originalidade, e a que a crítica me ligou, direi que Tolstoi continua o romance-espectáculo e que Dostoievski inaugura o romance-problema.

Dir-se-ia, e com razão, que todo o romance é problema e espectáculo, já que o espectáculo resiste num romance de Kafka ou Dostoievski, e o problema implicita-se numa qualquer narrativa, nem que seja o Amadis de Gaula. Mas é tão visível a deslocação do acento na obra de Dostoievski, que ela foi defendida, para existir, pelo que lhe é inessencial (como por um Brunetière e recentemente um Ernst Fischer, que o acoimam de «realista»), como foi atacada logo que apareceu, declarando-se então que não era obra romanesca, mas obra de filosofia. E é exactamente por essa intercepção de planos que um Gide se esforça por nos frisar que tal obra não é uma obra de ideias mas que mergulha bem no real. Gide, porém, tentou nela um acesso quase sempre pelo que se afigura menos fundamental, ou seja pela famosa «psicologia» – como Proust; e essa era sem dúvida julgada real, pelo entusiasmo com que neste meio século se canonizou a psicologia estranha, anormal, a psicologia das profundezas.

Mas o verdadeiro alcance de tal obra foi o próprio Dostoievski quem no-lo revelou ao afirmar: «não é o romance que mais me importa, mas a ideia». Daí que Malraux diga dele que «se alguém encontrou o seu génio a fazer dialogar os lóbulos cerebrais, foi sem dúvida ele», ou daí que, em variante, um Chestov nos declare de todas as personagens de Dostoievski que «não são homens, mas máscaras» dele próprio. Mas Berdiaev disse afinal o mesmo ao declarar que «o herói de Cadernos do Subterrâneo é uma ideia; Raskolnikov, de Crime e Castigo é uma ideia; Stavroguine, Kirilov, Verhorenski, de Os Possessos são ideias. Ivan Karamazov é uma ideia. Todos estes heróis são literalmente absorvidos pelas ideias, estão embragados por elas». E um Henri Troyat verifica-o igualmente ao declarar que «Os Possessos, como todos os romances de Dostoievski, valem menos pela intriga do que pelas ideias gerais que ali figuram. As ideias, o mesmo é dizer ‘as personagens’. Pois neste, como nos Irmãos Karamazov, como no Idiota, cada personagem representa uma ideia».

Que se me perdoe esta insistência nas citações; mas há afirmações que só têm curso entre nós quando firmadas na garantia – do magister dixit…A psicologia, portanto, das suas personganes é um estratagema para o mais, é um processo julgado plausível para o que mais lhe importava: a determinação das relações do homem consigo e com Deus ou a sua morte. Para medirmos bem o significado de tal psicologia bastará compará-la com a da obra de Proust. E então veremos que a distância que separa uma da outra é a distância que separa, no campo filosófico, a obra de um Bergson da de um Heidegger ou de um Jaspers. Proust mostra, Dostoievski interroga. Assim, um é calmo e o outro angustiado. Proust diz-nos como somos: Dostoeivski pergunta-se quem somos.

Proust raro ou nunca se interroga sobre quem é esse de quem diz como é, qual o seu destino, que significa a sua vida, e um exemplo flagrante o poderemos verificar nas suas considerçaões sobre a morte (À la Recherche, Vol. IX, p. 205, Vol. XI, p. 100 e Vol. XV, p. 223); Dostoievski dir-se-ia admitir que a profundeza da sua interrogação é ilícita, por estranha, aberrante, e diz-nos então como somos, fixa uma psicologia da aberração, para que a aberração do mais tenha um curso normal entre os homens normais.
Dir-se-ia assim que a psicologia de proust é uma constatação, a de Dostoievski uma demoníaca inveção. E se a esta invenção nós a julgamos uma «descoberta», é porque o seu trabalho de esclarecimento tenaz conseguiu enfim abrir-nos os olhos. Mas a demonstração cabal do que afirmamos – a separação de Proust e Dostoievski – é o próprio Proust quem a oferece nas referência não breves que a Dostoievski faz. Com efeito (ver Vol. XII, pp. 220-222), Dostoievski, para proust, valorizou-se apenas pela «psicologia», pelos «poços profundosda alma humana» (a «beleza nova e terrível de uma casa», a «beleza nova e dúbia de uma face de mulher, eis o que Dostoievski trouxe de único ao mundo»): Proust, como «psicólogo», só em termos de «psicologia» pôde entender o escritor russo. E o mesmo veio a fazer Virginia Woolf, que o associa, contrastando-o embora, ao próprio Proust.

Vergílio Ferreira, in “Situação Actual do Romance”, Março 1964

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