Rivotril, condomínio e outros latidos

16 mar

Depois da reunião de condomínio fui atrás de ler sobre a medicalização do mundo contemporâneo e a desvairada sensação de usar todos os tipos de drogas para curar nossas angustias.

O caso começa com uma senhora, mãe de alguns filhos. Diz que não é pessoal, mas precisa pautar um incômodo. As cachorras latem demais. as cachorras do vizinho latem demais, a filha precisa aprender matemática, é uma fase difícil. Ninguém sabe como é complicado aprender matemática. Se não aprender a vida reprova, o colégio caro reprova. O que fazer? Enquanto isso os nervos não suportam um monte de coisa. A obra, a construção do prédio público na frente do condomínio. Você não sabe o que fazer.

Logo uma segunda pessoa, reclama do esmeril usado por algum trabalhador de um galpão sediado no quarteirão vizinho. Impossível de se concentrar com aquele esmeril de som agudo que fica ligado a tarde toda. Como mandar um ofício para darem um jeito nele?! Dúvida cruel.

Por enquanto não se resolve o problema da obra, bate estaca, caminhão, trabalhador e apitos. Por enquanto não se resolve o problema da dificuldade de concentração dos estudos matemáticos. Por enquanto ninguém manda um ofício para o galpão do outro quarteirão, vamos falar sobre o motivo que iniciamos esse post – a medicalização do mundo contemporâneo e a desvairada sensação de usar todos os tipos de drogas para curar nossas angustias – escutei a boa ideia de dar calmantes para as cachorras pararem de latir.

Nessa mesma hora pensei, vou dar calmantes para a obra faraônica, para o trabalhador do galpão e para todos que estão ali. Todavia, contive-me… basta o mundo doido, eu também não. 

Logo,

“No cenário do mundo contemporâneo, o predomínio de determinadas psicopatologias (assim designadas) é fruto direto das novas configurações simbólicas forjadas pelos discursos sociais vigentes, discursos estes que atravessam os sujeitos, produzindo, assim, determinadas formas de subjetivação características de nosso tempo” (TAVARES, 2010)

O problema como mesmo observamos não é a obra faraônica e pública, ou o esmeril, muito menos os cachorros. O problema está nos homens. Vivemos esse eterno “mal-estar” (FREUD, 1930; 1992). Enquanto não resolver os nossos problemas vamos viver culpando o mundo…

Mas ainda estou intrigado, será que não nos basta as drogas que tomamos diariamente, precisamos ainda alimentar isso na vida de nossos animais de estimação? Queremos que os coitados sofram de nossos males?!

 

Boa noite e

uma bandinha de rivotril para todos,

Um velho e rabujento Capitão

 

na vitrola:

“E se não tivesse o amor?

e se não tivesse essa dor?

e se não tivesse o sofrer?

e se não tivesse o chorar?”

(Caetano Veloso – It’s a long way)

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Uma resposta to “Rivotril, condomínio e outros latidos”

  1. Raisa Arruda 16/03/2014 às 8:57 pm #

    Muito bom! Lembrei do Ensaio sobre a Cegueira, o “mal-estar” está acima das benesses civilizatórias, vivemos numa sociedade adoecida. E pior, não basta adoecer nossas crianças desde cedo, agora precisamos adoecer nossos bichos de estimação também! Ninguém quer se sentir adoecido sozinho… É uma afronta conviver com quem encontrou uma forma de estar vivo e feliz.

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