Sobre algumas perspectivas modernas e debates políticos rasos

25 set

Numa citação clássica Emília Viotti faz uma crítica pertinente ao olhar da historiadora francesa sobre a equalização social na vida cotidiana no planeta Terra, Viotti escreve: “Quando eu ouço Michelle Perrot, uma das historiadoras de vanguarda na França, dizer numa entrevista que a sociedade pós-moderna é uma sociedade em que as possibilidades de expressividade individual se multiplicaram, que o impacto dos sistemas políticos e dos modelos culturais têm sido exagerados e que afinal de contas as pessoas ainda têm sua vida privada, que suas faculdades críticas são cada vez mais desenvolvidas porque um maior número de pessoas são educadas, eu me pergunto se de fato essa observação se aplica às camadas populares tanto nos países periféricos quanto no centro. Mas quando Perrot afirma que a sociedade pós-moderna é uma sociedade em que as pessoas têm um respeito muito maior umas pelas outras, eu me pergunto em que mundo ela tem vivido”. Quero partir meu debate dessa perspectiva, em que mundo nossos jornalistas e cientistas sociais e políticos tem vivido? De fato não é em Fortaleza.

Acho muito bonito escutar certos discursos contemporâneos sobre qualidade de vida, luta pela preservação da biodiversidade, Rio +20 e outros assuntos de VITAL importância. Devemos MESMO nos preocupar com tudo isso. Todavia minha grande crítica começa daqui, desse ponto. Como podemos desejar fazer essa luta se ainda vivemos números estimados de miséria absoluta? Se nossos trabalhadores ainda vivem em sistema de escravidão ou semi-escravidão no sertão brasileiro? Se a bicicleta é um meio de transporte obrigatório e não alternativo? Como podemos pensar num país que só se preocupou em fazer mudanças e melhorias urbanas quando houve uma demanda da FIFA e não popular?

Fico com medo, muito medo de um debate sem aprofundamento, sem estudo social. Desejar uma sociedade avançada é um direito de qualquer sonhador, de qualquer ativista político. Contudo, sonhar por sonhar é melhor ficar em casa de boca calada. Não existe avanço da organização urbana de forma significativa na cidade de Fortaleza desde a primeira metade da década de 1990. Que mesmo assim, não foi suficiente para suprir o enxerto populacional que praticamente duplicou a quantidade de habitantes na cidade naquela década. Os últimos 8 anos de governo municipal só houveram, AO MEU VER, melhorias significativas em situações de risco social, exemplo: o bairro do Bom Jardim, Vila do Mar. Os projetos sociais foram MUITO importantes para minimizar a guerra civil que vivemos hoje. Não se admirem, VIVEMOS um guerra civil. Numa cidade em que a Regional II abriga apenas 14,63% da população e esses mesmos detêm o terceiro maior PIB do Nordeste, concentra quase 50% da geração de empregos e os seus moradores ganham em média 14 sálarios mínimos, chegando uma média no bairro do Meireles de 29 salários mínimos. É impossível não pensar que a cidade de Fortaleza ter uma das maiores concentrações de renda do país, perdendo apenas pra São Paulo e Brasília.

Nessa Guerra Civil em que estamos vivendo desde a chegada do crack a violência na cidade de Fortaleza aumentou em 70%. Um crescimento de assaltos e mortes banais para suprir a necessidade drogadicta dos usuários. E a única coisa que escuto é a população pedir mais policial na rua! Sério?! Vocês acham que curam esse mal matando? Vamos comprar então BayGon já que nosso problema é uma “questão de baratas”. Assim pensa nossa classe média, “a pobreza é um problema, os mendigos e os drogadictos são uma vergonha”. A classe média de fato é o nosso problema.

Enquanto vamos lutando por mais praças, menos buracos nas ruas, ciclovias e seguranças armados para nos proteger, vamos deixando de lado o verdadeiro problema que aflige nossa cidade. O crescimento exacerbado das diferenças sociais. Não se assustem se começarem a atear fogo nas favelas próximas à áreas valorizadas da cidade. São Paulo já vive isso… eles querem matar os pobres para ganhar e especular mais capital.

Ando com medo dos nossos jovens e seus discursos de classe média. Aqui não é Londres do final da década de 1970 que cabiam os movimentos liderados por ativistas, como E. P. Thompson. Em que mundo você vive? Em Belgrave Square e Kensington Palace Gardens?

Um velho rabugento Capitão

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Uma resposta to “Sobre algumas perspectivas modernas e debates políticos rasos”

  1. Raisa Arruda 25/09/2012 às 11:05 am #

    Rabugentinho, adorei. Adorei demais, porque concordo com tudo e morro de preguiça de levantar essa discussão. Mas a Classe Média só se preocupa com pobre quando ele aparece armado na porta da casa, e aí a preocupação é com a própria segurança e integridade e não com os motivos que levaram àquela pessoa a chegar a tal ponto de miséria, inclusive a moral.

    Mas amor, errei os dados quanto te passei a informação, os dados de 2007 que mostram que a taxa de homicídios em Fortaleza é de 40,3 para 100 mil habitantes, enquanto a média nacional fica em 25,2 para 100 mil. E o Major Plauto, que apresentou essa pesquisa, inclusive num seminário que eu fui, afirma que a nossa violência aumentou devido ao uso do crack, e que 87% dos delitos, desde roubos até crimes de morte, são praticados por jovens de 15 a 24 anos, que estão sob efeito da droga. De 2004 a 2008, o número de casos de roubo à pessoa em Fortaleza aumentou 81,2%, segundo a estatística oficial da Coordenadoria de Inteligência (Coin). E de acordo César Wagner Maia Martins, o crack é a origem de, pelo menos, 75% de toda a criminalidade urbana.

    Ninguém fala do trabalho feito com as crianças do Bom Jardim, desde o Centro Cultural, e as oficinas de brinquedos com sucata, de orientação vocacional, ou da TV Bom Jardim, ou das oficinas de artesanato com os jovens do bairro, ninguém comenta que com essas ações a violência, que ainda é alta, tem diminuído… Ninguém fala do projeto de Psicologia Comunitária no Lagamar, que trabalha com arte, ou da oficina de Hip Hop e Break nas favela do trilho.Ninguém fala dos cursos oferecidos no Santa Rosa, ali pela Messejana, que profissionalizam os pais e mães que estão desempregados e desamparados. … Porque falar desses projetos implica também pensar nas possibilidades de institucionalizá-los e levar à todas as comunidades, pois funcionam, estão funcionando, não fazem milagre, mas conseguem resgatar a auto-estima e confiança dos que buscam e participam, o que leva à essas pessoas buscarem outras alternativas para sobreviver, de forma mais humana…

    Enfim, concordo com toda a sua crítica, e acho que nós, enquanto cientistas sociais, seja na psicologia ou na história, ou onde quer que seja, também deveríamos ter um compromisso com essas mudanças na nossa atuação, seja na faculdade ou na escola, conseguir puxar essa reflexão já é uma forma de tentar transformar essa realidade…

    E ler as tuas reflexões só aumenta minha admiração por você ;*

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