Egoísmo, solidão e outras tendências pós-modernas.

19 jun

Somos egoístas, disse categoricamente para mim enquanto olhava o céu azul no fim de tarde no parque. Poucas nuvens, poucos pássaros cantavam, uma ou outra pessoa passeava, só nós dois estávamos sentados na grama, eu deitado, pois sou mais folgado e ela de pernas cruzadas.

Meio ainda assustado com tamanha acertiva eu perguntei, Marcília, por que acreditas tanto nesse egoísmo humano, Por que seríamos tão cruéis com nós mesmos, ao ponto de impedir que as pessoas cheguem perto de você para te dar aquilo que você mais deseja, o amor.

Na sociedade contemporânea, a solidão é como uma epidemia fora de controle, disse-me certa vez Pondé, parafraseou o amigo. O egoísmo é um mal que nós assola João, continuou a jovem filósofa, Devemos celebrar, por incrível que pareça, mas foi esse egoísmo que construiu os homens modernos. As mulheres meu caro, na sua necessidade de libertação, do feminismo, foram as primeiras a contraírem dessa benesse. Essa é a busca da riqueza coletiva.

Todavia, mulher, Eu disse, essa será nossa decadência, tão egoístas com nossas conquistas, nossas afirmações sociais, essa necessidade de ser amado, mas sem que seja tocado, trouxe-nos o isolamento. Vivemos num mundo cinza e sem sabor. E sem relações sociais as mentes que pensavam irão morrer, porque não tem espaço para outra pessoa, já que seu conhecimento, seu egoísmo, suas conquistas te bastam. E, de forma idiota, digo-te, A sociedade precisa que haja relações matrimoniais para se perpetuar. Sem amor ao próximo, sem casamentos, sem filhos, não existe riqueza coletiva.

É, João, estás certo, na verdade, na verdade, a única coisa que buscamos, estamos por abdicar nos últimos séculos de conquista, o amor. Vivemos numa sociedade que cultua tudo, a beleza, a riqueza, o popularismo, o egoísmo. A única coisa que esquecemos de cultuar foi o amor, e não o amor por si, mas pelo outro. Outro dia me dissesse que o amor de hoje é simplesmente uma confluência de egoísmos. Estranho acreditar que aprendi que amar é, deixa-se amar, abdicar, permiti-se. Hoje isso não mais existe. Ninguém está disposto a abdicar de si mesmo por outro alguém. Ninguém. Estão todos ressabiados.

Marcília tinha razão, e foi por isso que não resolvi voltar. Eu poderia muito bem reconquistar tudo que conquistei. Eu tinha esse poder, eu ainda tinha esse poder. Todavia, não podia voltar para algo que não estava disposto a ser recíproco. E, acabei por ser tão egoísta quanto o que deixei para trás. Um dia, terei coragem de abrir as cartas, aquelas 17 cartas que estavam empilhadas na gaveta do criado mudo.

 

abraços,

O Velho Capitão

 

 

 

 

 

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2 Respostas to “Egoísmo, solidão e outras tendências pós-modernas.”

  1. Maria 21/06/2012 às 10:34 am #

    Aprendemos cada vez mais cedo a desamar, a entrar na redoma que nos preserva, tolos que somos. Mais que egoísmo acredito que sofremos de medo! Medo do outro, medo do desconhecido. Reconheço toda uma geração nessas linhas e nessas não linhas. Um lamento, meu lamento.

  2. Roberta Gomes 14/08/2012 às 4:44 am #

    Amei o texto, mas mais ainda amei o comentário da Maria acima. Resumo puro e realista. Lamento muito tb conhecer/reconhecer pessoas assim.

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