Um velha carta

28 maio

Como poucos previram, mas eu sempre tive certeza, numa manhã de domingo acordei mais calmo. Rebento de ligações e algumas cartas no chão do quarto. Algumas de contas a pagar, outras de Antônia. O selo com a bandeira de Pernambuco e o envelope rajado de verde e amarelo nas bordas apertou um pouco o coração. Saudade.

Ir para bem distante foi a melhor e a pior coisa que pude fazer. O país vive um clima indeciso, as pessoas estão muito indecisas, as mulheres estão uma pilha de nervo. Deve ser tudo por conta dessa instabilidade social que vivemos. Elas não tem culpa dos homens da pátria. Fomos nós que criamos esse mar agitado de insegurança. Tanta violência que viver é complicado, sair as ruas e apenas caminhar gera medo. A vida dá medo. Mesmo com a anistia eu preferi não voltar. Próximo ano falam em uma nova Constituição, falam que vamos voltar a ser felizes. Eu não quero voltar para nada, minha felicidade está no que vivo e no que irei construir e não no que deixei pra trás.

Já era a décima oitava carta que ela me mandava e todas continuavam fechadas, exceto a primeira. Ela dizia, Olá João, tudo bem contigo? Eu sei que é complicado para você ter ido embora, abdicado dos seus sonhos, de viver uma vida que não era aquela calmaria e segurança que você se prometera. Não ter filhos, não ter sua família. Eu acho que te forcei demais, forcei cedo por respostas que nem eu consegui responder. Respeito seu silêncio, mas por favor, me fala como você está. Se não tenho mais teu telefone, se você não tem mais um número, pelo menos essa caixa postal deve servir para alguma coisa. Talvez chegue até você minhas palavras de saudade. Dê notícias.

Eu achei linda aquelas palavras, e por isso, senti saudades, mas com o passar do tempo comecei a entender que os nossos sonhos não seriam possíveis. Ela nunca conseguiria fugir do seu mundo para viver uma grande aventura. A aventura de viver. Tudo bem cômodo, com suas crenças, suas mentiras verdadeiras, ter que dar satisfações para o mundo. Eu não queria isso. Por isso, acabei não abrindo mais nenhuma carta.

Estou bem, costumo me acordar cedo, escrever um pouco e pesquisar. Saio para almoçar quase todos os dias, alguns dias sinto fome, outros não. Tenho caminhado no parque da cidade, não para fazer exercício, apenas para ficar deitado sentindo o cheiro da grama, ver as crianças correndo e os palhaços andando na corda bamba de sombrinha. Quando vai anoitecendo eu costumo escutar música, há uma loja de discos perto da praça. Ontem mesmo eu encontrei o recém lançado disco Bad do Michael Jackson, muito bom. Chego em casa sempre as 21h, leio um livro e vou dormir. A televisão não me apetece mais, acho que ela está em decadência, espero que desistam dela. Eu não sinto mais falta de ninguém, eu me encontrei. Desejo que você se encontre, descubra o quê te faz bem e lute por isso. Todavia, lembre-se; ninguém pode ter tudo. Nas escolhas da vida, você vai ter que um dia decidir deixar algo para ter alguém. A vida é feita de escolhas cruéis, sem direito a correções. Boa sorte.

 

abraços,

O Capitão do submarino amarelo

Anúncios

Uma resposta to “Um velha carta”

  1. gislenellery 28/05/2012 às 10:25 am #

    Gostei.
    Deu saudade. Nao sei nem bem do que, mas deu saudade.
    Obrigada! :-)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: