Casa Grande & Senzala

24 fev

De onde nós viemos? Esse semestre tem revelado um estudo um tanto inusitado sobre quem nós somos. Formas, cores, sombras e um pouco da nossa alimentação.

Ontem eu estava no velho lugar onde todos passam, há 4 anos. Falávamos de assuntos diversos, quando recaí num velho problema. A dicotomia da Casa Grande e da Senzala. A Casa Grande sempre estará encrustada na classe média. Hora estaremos querendo brincar na Senzala, hora estaremos a negando, pois queremos consumir das benesses da Casa Grande.

Tenho saudades de Miudinho e Pitoco. Quando cheguei no Edson Queiroz em janeiro de 1986 a paisagem era bastante diferente de como hoje encontramos aquelas ruas. A minha rua ainda era de barro batido e no final havia um enorme descampado. Dali dava para ver a favela do Dendé.

Miudinho e Pitoco sempre apareciam no início da manhã e no final de tarde na rua, para pedir esmola, pedir água, um “pão pá comê”. Até que um certo dia, minha mãe cansou de dizer não e chamou-o para dentro de casa, foi conhecer a mãe dele, dizer que ia ajudar, ia ensiná-lo a trabalhar. E os ensinou a primeira coisa que o capitalismo nos ensina quando queremos algo. Trabalho em troca de salário. Trocou o pão para comer por uma varrida de manhã cedo. E, assim, ele todo dia passou a ter seu café da manhã.

Naquela época a gente vivia um país miserável onde essas crianças assim que acordavam corriam para rua buscar o desjejum. Tínhamos já entre 10 e 14 anos. Estávamos crescendo. No final da rua já tinha construído um muro alto, cercaram o terreno e dentro uma pequena casa morava Demian, sua irmã mais nova e seus pais. Brincávamos bastante no seu terreno, caçar calango, jogar bola e corta cana pra chupar o sumo doce.

Nas férias a rua era o ponto de encontro. Miudinho ainda era miúdo, Pitoco já chamávamos por Danilo, ele estava sempre estava lá em casa e minha mãe não gostava de apelidos. Foi ele que me ensinou a fazer pipa, cerol e soltar pião. Um artesão nato. Miudinho tinha uma visão mais aventureira da coisa. Do muro alto do terreno da casa de Demian, ele nos ensinou a quebrar o tijolo e escalar o muro dos seus 5 metros de altura, sem corda.

Tadeu era o filho da empregada da vizinha, que nasceu e se criou com as tiazinhas que moravam juntas na casa 30. Ele era mais velho e vivia dentro da favela. Foi ele que nos levou lá dentro pela primeira vez. Aquele mundo maravilhoso de becos longos e cheio de gente andando na rua e falando alto. A favela era linda. Tinha vida própria. Toda vez que eu entrava me lembrava de Aloísio de Azevedo explicando como era o Cortiço. O Cabeça de Porco nunca morreu de fato. Ele renasceu em todas as favelas que construímos.

O menino um dia cresce. E a gente cresceu. Quando a gente cresceu ficou chato. As verdades vinheram a tona, a inocência terminou. E eu não era da favela. Apenas morava do lado. Não podia entrar mais quando quisesse. Agora tinha briga de gangue. Porque menino tem que vira sujeito-homem. Lembro de uma última vez. Eu já com 17 anos indo comprar refrigerante na bodega da entrada da favela, na volta Miudinho jogou uma pedra de barro que acertou nas minhas costas e ele e seus amigos gritavam como quem estivesse expulsando a gente. Aquele era o território deles. Nunca mais voltei. 2 anos depois a gangue da rua do comércio desceu e foi na casa de Danilo, perguntaram por ele e ele disse que sim. Eu sou Danilo, por que? O sujeito disparou 5 tiros no peito do meu amigo.

Acredito que hoje essa história teria terminado diferente. Mas no século passado, as coisas estavam bastante claras. E, a classe média não queria conversar com a favela. Resolvi seguir um caminho em que eu pudesse mudar isso. Não por Danilo, mas por mim. Aquela pedra de barro doeu tanto.

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Público versus Privado

26 dez

O que é a esfera pública e até aonde vai o espaço privado? Há alguns tempo houve um debate fervoroso se a vida particular de um escritor deveria ser exposta na sua biografia. O que de fato é relevante para o público? Sua obra ou suas puladas de cerca?

Na verdade a questão mais complexa que iniciamos essa pequena reflexão é; o que é o público? Qual a esfera pública? Quem são os personagens ou atores sociais que interferem na construção do espaço público?

Quando Ginzburg (1976) “perguntou” a Menocchio o que ele estava lendo, no início da era Moderna para ser condenado pela Santa Inquisição, Ele  não estava fazendo uma pergunta de curiosidade sobre sua intimidade. Naquele momento, descobrir o tipo de leitura de um moleiro em pleno século XVI era desvendar a forma como um campesino pensava sobre Deus e o Universo. Os primeiros preâmbulos de um mundo que começa a questionar o poder secular da igreja.

Saber os tipos de xingamento que um garoto faz para um homem que não compactua dos seus ideais não é a questão.

Vainfas (1996) percebe nos primeiros volumes do livro “História da Vida Privada” organizado por G. Duby que:

“A primeira questão que certamente nos ocorre diz respeito à licitude do objeto tal como é concebido, ou seja, como esfera da vida social necessariamente presente em todas as sociedades e períodos históricos, da Europa à Africa Romana, da Antigüidade aos nossos dias. Duby se antecipa a tal questionamento no próprio ‘Prefácio’ e, não obstante reconheça que o conceito de privacidade só adquiriu consistência ‘em tempos bem recentes’ – o século XIX -, sugere haver numerosas evidências de que no próprio vocabulário de épocas passadas exprimiu-se ‘o contraste, claramente detectado pelo senso comum, entre o privado e o público'”

Por recentemente, definirmos a ideia de privacidade, também nos damos o direito de escolher não tornar público aquilo que preferimos guardar a sete chaves. Diferente de algumas práticas culturais percebidas por Duby na antiguidade.

Por que eu quero chegar a esse ponto e cito um bate boca no início da questão? Na antiguidade, mas precisamente, no Império Romano, todos os homens e mulheres faziam cocô juntos, se chamava até o amigo para ir naquele momento para discutir os problemas da comunidade. Todavia não conheço nenhum relato que no final, os amigos iriam conferir o tamanho do cocô alheio como método comparativo. Por que cargas d’águas adoramos saber do xingamento, da traição, do tabefe, de tudo aquilo que não é nosso? Só por que foi no espaço público? Voltamos a questão do banheiro, o banheiro é público, mas ninguém está fazendo questão de ver o cocô do outro. Então, por mais que a particularidade seja feita em esfera pública, qual o nosso direito de publicizar, debater, atacar, defender… emitir qualquer tipo de opinião sobre a vida privada?

Sei que alguns historiadores da antiguidade podem até me recriminar por ter feito essa alegoria. Todavia foi a melhor forma que encontrei de criar um susto momentâneo na leitura e evidenciar que vivemos um momento em que buscamos muito mais saber da vida alheia do que entender nosso contexto.

Há alguns meses fiz uma análise sobre o comportamento do brasileiro no seu cotidiano e criei uma situação hipotética. Fui parado por onde andei nos dias posteriores por pessoas que reconstruíram a história da forma que a convêm. Alguns recriminaram, outros apoiaram. O fato é que como não citei um caso, apenas sugeri uma situação, todos buscaram criar ou identificar uma situação.

O motivo está bastante relacionado a pergunta de Ginzburg. Ninguém quer saber porque ele lia aquilo. Apenas queremos saber o que ele lia. Trocamos a questão de como sua leitura interferia no seu cotidiano e passamos a perguntar a quem ele repassou os livros. Reduzimos a reflexão da informação, ao reduto da fofoca. O fato em si deixou de ser importante, a picuinha é o que importa.

 

Um velho Capitão

Uma prova e um monte de dúvidas

27 out

Outro dia estávamos aqui discutindo sobre o quão démodé era xingamentos de gênero, sociais e afim. Todo xingamento é um preconceito. Vivemos num país em que nenhuma diferença, por menor que seja, foi resolvida. Nesses últimos 20 anos – marco que tenho utilizado, para evitar a questão PT versus PSDB – começamos a brincar de construir um país.

Um país forjado por uma elite cruel, os conceitos (constituição) não poderiam dar certo. Nos primeiros momentos em que as diferenças sobre a condição social foram reduzidas, surgiram os problemas que costumeiramente disfarçamos, em música, ditados e outros costumes. Exemplos: “ele é viado, mas é meu amigo”, “uma dama para sociedade, uma puta na cama”.

Uma prova simples, um exame nacional vem a tona e coloca em cheque todos os nossos conceitos. Ninguém se preocupou de questionar o nível de dificuldade das questões, se foi uma prova digna do ensino médio. Pior, não se colocou a tona o quê os alunos do ensino médio acharam sobre a prova. Apenas emergiu dessa condição de idiotia as palavras do nosso ódio recalcado.

Apesar dos pesares, continuemos preferindo nas relações interpessoais viver com as mentiras. Como podemos crescer e mudar a condição social, se na brincadeira de escola, “polícia pega ladrão”, todo mundo quer ser o ladrão, porque é esperto e foge de quem oprime? Como podemos mudar se precisamos voltar a debater as mesmas questões, já que elas nunca se encerram? Aquilo que não encerramos é nossa vontade de continuar… consciente ou não.

Não me isento de nada que digo, sou fruto dessa cultura. Elaboro, reproduzo e a questiono o tempo todo. Tenho tentado xingar menos, mas com tanto opressão, como descarregar tanta raiva? Parece que isso volta o tempo todo. Quanto mais os palavrões saem da boca, mais opressor me sinto.

Todavia, o ENEM prova a cada dia que o método de avaliação está certo. Agora fica a dúvida: o método de ensino básico, está certo?

Sobre os comentários da prova, aqui direcionado àqueles que falaram mal dela. Como esperar de uma sociedade que nos últimos 20 anos tiveram seus problemas básicos (saúde, educação, água, luz e internet) resolvidos bem ou mal? SEI QUE NÃO ESTAMOS NENHUM EXEMPLO DE INFRAESTRUTURA. Todavia, bem ou mal o acesso a esses setores foi alcançado. E, não vou usar dados para provar isso, seria um texto acadêmico, e não de opinião.

Chegamos ao comodismo. Uma sociedade preguiçosa, obviamente, não mexeria um dedo para virar uma página e ler nada. Reducionismo. Na verdade para 36 milhões o acesso a comida foi um fenômeno estranho. Motivou para uns, gerou comodismo para outros. Todavia, o momento mais marcante é o acesso a educação. Temos percebido como tudo funcionava/funciona no Brasil. Graças a leitura. Isso gera mais “estranhismos”. A relação de pertencimento cada dia faz caminhos antagônicos, alguns reivindicam a nação, outros querem fugir disso tudo. Por motivos diversos.

E a prova? Apenas a ponta do iceberg. Para aqueles que deitaram em berço esplendido, fica confuso. Como as elites que criaram as diferenças podem ser atacadas pelo próprio estado inventado por eles? Acho que é essa questão. O narcisismo das pequenas diferenças em Freud (Agradeço aqui a leitura rápida repassada pelo meu amor, Raisa Arruda). Vale citar REINO & ENDO: “Tal narcisismo poderia ser a chave para o entendimento de uma hostilidade inerente e constante nos vínculos humanos (com a exceção da relação mãe-filho)”. Parece que as elites se revoltam pois é tomada dela o direito de dominar os meios. Para piorar tudo, a classe média que opera com o status de poder, se usa do narcisismo das elites para se revoltar contra o estado que não a representa. Apenas a usa. LOUCO. E uma parcela da população que ascendeu da miséria, com medo de voltar pra ela, usa do discurso narcísico das elites como se os representassem. MAIS LOUCO AINDA. O que isso resulta? Esse pandemônio de besteirol que surge nas mídias sociais reclamando da prova, do governo e dos seus medos.

Tudo isso, para camuflar uma única coisa, sei lá se consciente ou inconscientemente, que esse estado há 20 anos tem tentando minimizar as diferenças e tem uma parcela significativa da sociedade que quer manter essas diferenças a todo custo. Há 3 anos disse em sala de aula. Estamos em Guerra Civil. Só que nessa guerra não existe o lado A e o B. São várias trincheiras, vários lados.

Cansei… deixo esse texto inacabado e sem nenhum revisão, para criar coragem de revê-lo e lapidá-lo a posteriori!

Abraços,

um velho capitão

Sobre economia e uma mídia safada

10 mar

Queria entender sobre economia baseado nos jornais especializados. Mas como macroeconomia é uma parada que muda a conjuntura econômica e dá revestrés a cada semana, acho que a infomoney sabe ser coerente e eu não consigo entender mais nada… ou não.

Vamos as notícias:

em 2013 estávamos à beira da maior crise desde 1929, coisa que a marola de 2008 que quase quebrou os EUA seria besteira…
http://www.infomoney.com.br/…/professor-harvard-avisa-bolsa…

em 2014, a MESMA revista eletrônica disse que o Governo era mentiroso e a crise anunciada um ano antes, por eles, era uma farsa da Dilma.‪#‎culpadadilma‬ LÓGICO!!! 164 economistas assinaram que o professor de Harvard era burro. 164 contra 1. Vitória disparada, não é?!
http://www.infomoney.com.br/…/164-economistas-criam-manifes…

Agora em 2015, comprovando a ação do FED, que eles anunciaram dois anos antes, as bolsas de valores do mundo iriam sofrer variações exponenciais para baixo devido ao modo de atuar das pessoas físicas por não saberem operar ações em momentos de crise estrutural financeira. Lógico que para não deixar barato, a revista também dá uma culpadinha no governo. Mas olhem lá… “Ibovespa tem queda forte seguindo o movimento das bolsas internacionais devido o anuncio da subida de juros do FED em junho. Opa. Podemos regressar a matéria de 2013?
http://www.infomoney.com.br/…/ibovespa-tem-queda-forte-com-…

Para quem gosta de história e não se vidra em jornais… sempre uma boa saída.

Até a próxima,
caros exagerados.

ps.: Agora, por favor, nobre presidenta, nada de achar que aumentar taxa de juros vai solucionar nossos problemas. Precisamos voltar a economia desenvolvimentista do seu companheiro.

Bangalô em Fortaleza

6 mar

Devido a uma questão que aparece de forma pertinente sobre nomenclatura das edificações na história da arquitetura do Brasil no início do século XX, resolvi fazer uma pesquisa para tirar as dúvidas sobre.

Sempre tive essa ideia do que era um bangalô, uma construção de madeira e palha com o assoalho elevado a beira mar, como podemos observar abaixo:

:

O modelo de bangalô nasce para a percepção ocidental com a colonização da Índia, pelos britânicos no final do século XVIII. Fui atrás de ver como deveria ser esse modelo atualmente na Índia e adjacências e acabei descobrindo esses tipos recentes de bungallows:

Esse encontrado (acima), em Batu Feringhi,Feringhi Villa,Penang. Malaysia. E esse (abaixo):

fagu_tea_bungalow

no Noroeste da Índia.

No Brasil, os bungallows demonstravam uma diferença no estilo e na construção. Eles se nortearam pelo modelo britânico no final do século XIX.

Uma das coisas mais interessantes e instigantes de estudar história da arquitetura é perceber como o homem na sua condição de ser cultural altera demasiadamente estilos e características arquitetônicas. E pela falta de nomes acabam por cunhar termos homogêneos em possibilidades diversas. Sempre bom salientar a importância de perceber a periodização das análises.

segundo Maristela Janjulio (2011), doutorando em história da arquitetura pela USP:

As principais condições para a criação dessa cultura urbana surgiram nas três décadas anteriores a 1914. Por todo o mundo, as novas tecnologias estavam sendo introduzidas, assim como circulavam ideias sobre sanitarismo, habitação, planejamento e saúde. Uma nova cultura, que se expressava não apenas em termos econômicos, sociais e políticos, mas também espaciais, deixava sua marca nas cidades e na maneira de viver de seus habitantes.”

o modelo de construção estava em franco processo de alteração no mundo, baseado nas novas necessidades de infraestrutura urbana. Isso já bastava para mostrar que a concepção construtiva havia mudado no Brasil. Todavia, cometeríamos um equívoco de analisar o caso de São Paulo baseado, unicamente, no modelo inglês como copismo, importado da Índia no século XIX e sua relação com o neocolonialismo. Os bangalôs no Brasil chegam para nutrir uma necessidade da burguesia que tentava criar uma nova tradição. Vale lembrar que E. P. Thompson em seu livro Costumes em Comum ressalta a necessidade da burguesia em inventar tradições. Construir uma residência particular foi um dos meios que a burguesia nascente em São Paulo se preocupou em ter, para demonstrar uma nova tradição

O caso de Fortaleza é mais interessante, pois como cidade periférica, longe dos grandes centros urbanos do Brasil, a cultura ainda era de uma sociedade proto industrial e de um forte apelo para o comércio. Na verdade, Fortaleza estava ainda longe da condição burguesa, mas muito mais próximo de uma classe média insurgente e poderosa. Se pensarmos de forma conceitual.

Quer dizer: a classe média fortalezense recriava os modelos da burguesia brasileira mediante suas necessidades e sua vontade de afirmação. Aqui não era uma questão simples de inventar tradições. Acabava copiando e adicionando novas marcas.

Em São Paulo, os bangalôs surgem em áreas de novo loteamento da burguesia e pela adição do carro na vida desses burgueses, ficava ainda mais atrativo, o afastamento da cidade. Como mesmo observou Maristela Janjulio (2011):

“A arquitetura do Jardim América representou um novo padrão de moradia. Apesar da aparência externa bastante variada, se outro aspecto for levado em consideração, ela constituiu uma unidade: é uma nova forma de morar — moderna —, para a qual o bangalô foi um dos modelos, e os subúrbios, o cenário”

como podemos ver na casa abaixo, da rua Equador, demonstrado por Janjulio:

Bangalô Rua do Equador

Há uma integração entre jardim, terraço e a casa. O uso de madeiras em formatos geométricos nos detalhes da casa dão uma sensação mais aconchegante para a fachada.

Na cidade de Fortaleza, áreas que tendiam a esse comportamento descrito por Janjulio, podemos citar o Jacarecanga e o Benfica, posteriormente, o bairro dos oiticeiros, mas tarde Aldeota.

Se fizermos um comparativo no traço do bangalô paulistano e o bangalô fortalezense veremos algumas similitudes. Basta olhar o bangalô de Aristides Capibaribe:

bangalo de aristides capibaribe

o caso, da forma do desenho, o uso da madeira nas janelas leves e com veneziana, a pequena elevação e o avarandado lateral que dar um ar íntimo para a casa. O uso da geometria da art decó que já estava em voga no mundo, é um fator que podemos inserir nessa análise. Para Fontana, Santos e Ghirardello (2012):

“no Brasil, o ecletismo foi fortemente manifestado no início do século XX, por conta da continuidade de influências européias que perduram devido a colonização do país feita pelos portugueses. Este era um momento de renovação. Outra tendência estilística que se revelou nas habitações mais como uma manifestação decorativa do que construtiva, foi a expressão popularmente chamada de art déco. Que adotou uma tipologia de fachada futurista, menos rebuscada, com linhas estilizadas e geométricas, utilizado principalmente para mostrar modernidade à cidade.”

Fator importante para acreditar que a art déco apenas serviu como detalhamento de fachada das casas, numa mistura de conceitos bastante idiossincrática da cultura local. Como podemos ver no Bangalô Aristides Capibaribe e na Escola de Artes e Ofícios de Fortaleza (abaixo), as duas edificações no bairro do Jacarecanga.

escoladearteseoficios

Sobre a parte interna das casas, podemos citar Janjulio (2011):

“Em muitas dessas casas, a sala de estar, ligada por um arco à sala de jantar, substituiu a antiga e enclausurada sala de visitas, como também ocorrera nos Estados Unidos. Nos dias quentes, a varanda atuava também como ambiente de estar. O próprio jardim apresentava equipamentos para favorecer a permanência, constituindo-se em outro ambiente onde a família se reunia”

Para fazer o contraponto de observação na pesquisa feita pelos meus alunos na rua Visconde do Rio Branco, em setembro de 2014:

detalhe casa sala

o detalhe da passagem da sala de estar para a sala de jantar, o arco é alterado para um desenho trapezoidal. Essa de ligação dos dois espaços se mantém comum nas casas da cidade de Fortaleza, com inúmeras variações.

Como explica Carvalho (2008) a respeito do uso do espaço interno das casas:

“Os segmentos médios foram, em São Paulo, o público-alvo predileto dos conselhos e campanhas publicitárias que previam o enfraquecimento da sala de visitas como zona de representação social e o seu fortalecimento como área de convívio familiar, íntimo e confortável, segundo o modelo inglês do living room”

A casa fortalezense é, de fato, construída para a classe média abastada resultante da força do comércio. E, segue o modelo de divisão do espaço interno de área de convívio da família.

A grande dificuldade de entender o estilo das casas de Fortaleza na virada do século XIX para o XX é perceber que os movimentos neoclássicos, século XVIII, o ecléticos da segunda metade do século XIX chegam juntos com as tradições inventadas de uma classe média. Essa mistura casa bem com a vontade de Fortaleza adentrar de vez na internacionalização da arte moderna. Bem percebido no olhar de Sebastião Ponte no livro Fortaleza Bellé Époque (2000).

Acredito que a grande questão aqui é demonstrar a possibilidade do estilo arquitetônico sofrer variações devido a cultura e condição social dos indivíduos. É impossível ter um estilo purista. Pontuar o purismo é tentar negar a diversificação cultural que criamos mediante a capacidade inventiva do povo.

Referencial Bibliográfico:

A. Fontana, K. Santos e G. Ghirardello. Resgatando o patrimônio arquitetônico dos bangalôs do início do século XX: influência européia no Brasil. XI Congreso internacional de rehabitalitación del patrimonio arquitectónico y edificación, 2012. in: http://www.todopatrimonio.com/pdf/cicop2012/11-actas_cicop2012.pdf

Maristela da Silva Janjulio. Bangalô – subúrbio: a circulação internacional de uma cultura da habitação no início do século XX. OCULUM ENSAIOS 13: Campinas – São Paulo, Janeiro/Junho 2011

V. C. Carvalho. Gênero e artefato: o sistema doméstico na perspectiva da cultura caterial — São Paulo, 1870- 1920. São Paulo: Fapesp, 2008.

Batatinha versus Valberino

8 dez

Saudades da antiga primeira série do primeiro grau (hoje, 2º ano do ensino fundamental). Tia Adriana. Um universo chamado Colégio Cearense Sagrado Coração. Onde na prova de estudos sociais aprendíamos a rosa dos ventos pelo nome das ruas. A Duque de Caxias estava ao norte do colégio, Clarindo de Queiroz ao sul, Visconde do Rio Branco, leste e Jaime Benévolo ao oeste.

Na mesma sala da 1ª série estudei também a sétima. Tinha tanto medo de estudar com os mais velhos que pedi no outro ano para ir para outro colégio. Para você caro leitor, que não sabe, no Colégio Cearense se estudava de tarde da 1ª série à 6ª série. E, pela manhã, dá 7ª série até o 3º Científico (3º ano do ensino médio, atualmente). Queria crescer distante de onde eu sempre fui pequeno. Quem sabe amadureceria lá fora… ali eu entrava de cabeça baixa envergonhado de encarar os estranhos da manhã.

Sobre meus medos e o amadurecimento isso é algo que vencemos e aprendemos a conviver com tempo. Com a vida. Temos que enfrentar os nossos medos. De preferência, não podemos tentar enganar a nossa consciência. Não adianta mentir para os outros, muito menos para si mesmo. Hoje, vejo muitos que tem medo e tentam ludibriar a vida. Acreditam que se eu der um ponto e ele passar, isso basta. É uma vitória mentirosa que um dia a vida irá cobrar da pior forma. Para cada pecado, uma pena. Não se engane.

Enquanto Deus brincava de gangorra no playground, certa manhã cheguei mais cedo e indo para sala da turma C, Batatinha me parou. O ano era 1987, eu ainda nos auges dos meus 6 anos de idade e preocupado sobre meus dentes de leite que teimavam em cair e eu sentir dor. Disse meu querido amigo, Rodrigo, estou brigado com Valberino. Ele disse que eu era chato e vive implicando comigo. Eu não gosto dele. Estou de mal. De qual lado você vai ficar, terminou me perguntando. Eu assustando respondi que não iria ficar de nenhum dos lados. Eu gostava dos dois, e perguntei, por que eles não poderiam fazer as pazes e voltarmos a brincar todos juntos. De fato, isso logo aconteceu. Besteira de criança se resolve fácil.

Hoje, 2014, vejo pessoas que são queridas, já foram queridas, brigando a toa. Pela asneira do disse e me disse. Com medo de enfrentar e admitir seus erros. Criar conchavo para um deixar de falar com o outro. E, o besta, aceitar sem saber de nada, só para agradar o amigo em desafeto. Cresça. Batatinha fazia isso, mas ele tinha 6 anos. Vocês, não.

Nos últimos anos resolvi não mais esconder nada, se me perguntam eu falo quase tudo, não irei guardar minhas dores. Explico meus erros e minhas escolhas. A primeira coisa que me faz mal, são minhas mentiras. Escolhi não mentir e não guardar nada que não possa ser dito. Nessa linha tênue da verdade, o grande cuidado é não prejudicar terceiros.

Se estás curioso para saber sobre o quê, ou de quem estou falando, fique calmo e pare de fazer conjecturas. O texto nasceu no intuito de refletir sobre o que queremos fazer das nossas vidas. Já que é Natal, juntei uma história verdadeira que sempre me lembro da minha infância e é um paralelo com um pobre coitado que sempre escuto histórias dele e eu não é meu amigo. Sei de ouvir falar. Então, não posso citar nomes. ratifico: “o grande cuidado é não prejudicar terceiros”

A moral das histórias é: É Natal… cresça, pare de fazer disse-me-disse. Se quiser saber, pergunte. Se quiser tomar partido, se exponha. MAS, se quiser ser feliz, aprenda a perdoar àqueles que te tem ofendido.

Feliz fim de ano a todos,

muita paz, muito amor e muita tranquilidade.

até 2015.

Um velho Capitão.

Homem, cidade e memória

18 nov

“…pela ótica do empreendedor, se colocar no papel vai ver que é mais lucrativo derrubar esse prédio e construir um novo… eu, particularmente, acho feio, colocaria a baixo também…” (anônimo)

Um homem sem história, acorda todos os dias sem saber o dia, a hora… desfigurado pela velocidade dos automóveis. Não há espelhos para lavar o rosto. Mais uma noite com o corpo deitado no papelão. O barulho das primeiras horas do semáforo são tão iguais a qualquer despertador de criado-mudo. Já há buzinas às 6 horas da manhã. Ansiedade.

Sem nome, não precisa saber o que aconteceu ontem. A única importância é o hoje. O importante é saber se vai ter um pão para comer. Se alguém vai lhe ceder água ou algum pedaço de carne durante o dia. Sobreviver é o sonho. Só existe hoje.

Uma cidade sem história, acorda todos os dias sem saber o dia, a hora… milhares de trabalhadores velozes reconstroem a cidade das memórias. Não tem foto que guarde um passado próximo. Ontem já não tem mais imagem. Na era digital, não sobrevive resíduos materiais; fotos reveladas. Nem os vidros verdes refletem seus concretos. Não há memória. Já há bate estacas às 7 horas da manhã. Ansiedade.

Sem nome, não precisa saber as últimas notícias. Apenas reprodução de ontem. A única importância são as novidades de hoje. É se será construído algo novo. Se vamos crescer 1 ou 2% a mais que mês passado, que o trimestre passado, que o ano passado. Só existe o presente.

um velho Capitão.

Arquitetura colonial portuguesa: São Luís

27 out

sobre independência, unidade nacional e afins

27 out

A unidade só consegue ser forjada “finalmente” na constituição de 1988. Todavia esses e-movimentos sociais tem provado que até agora é apenas uma forja

A primeira tentativa de separação ocorre com as guerras de independência e a vitória do império em 2 de julho de 1823, Na Bahia. Data que é comemorada até hoje, por lá!

Os resíduos da confederação do equador de 1824 citado pelo amigo Andre Almeida, analisando essa forja de unidade nacional, ainda é percebível no nome das ruas do recife. Os heróis ainda tem nome de ruas na capital dos confederados.

A guerra do Paraguai de 1867 a 70 é importante para criar o primeiro sentimento de identidade nacional. Coisa que o Brasil ainda não tinha sentido.

Getulio é o estado novo contribuíram para isso. Um dos feitos de Getulio foi a queima das bandeiras estaduais e o fim das federações. O Brasil era um país, não mais Estados Unidos do Brasil como pregava a constituição de 1891.

A decadência econômica (um modelo que só beneficiou o capital estrangeiro) e o nacional desenvolvimento de JK favoreceu a ideia de um nordeste com mão de obra e um Sul com áreas de trabalho e rico.

A ideia era apaziguar as diferenças e desenvolver tirando de cada um o seu melhor, mas o modelo industrial não cabia ao nordeste agrícola. A sudene seria um fracasso anos depois, mas ajudaria os coronéis se solidificarem no poder e roubar dos cofres públicos…

Em 1964, a ditadura consolida o papel opressor do estado. Aqui você pode pensar que tudo de ruim aconteceu para legalmente solidificar o sistema opressor na relação opressor x oprimido. 20 anos de equívocos.

E a constituição de 1988 ratifica os elos do passado recente. mantem como em 1946 se manteve os sistemas coercitivos, os sindicatos coorporativos, sistema tributário cheio de frestas para corromper… falaria horas de como as lacunas são enormes para o desenvolvimento. Todavia a unidade estava “finalmente” forjada.

Vem o nosso playboy favorito, Collor. Ele tenta ser o progressista que o Brasil precisava, mas o playboy tava mais empolgado com o status do que a história. resumindo e sendo rasteiro, sem paciência. Mesmo assim, ataca as superforturnas, rouba as cadernetas de poupança da classe média, taxa movimentação bancária, ele tenta fazer a reforma tributária como estava previsto em 1988. Não era interessante, ele é muito jovem. Ele cai, por conta de uma Elba e um irmão enciumado.

O modelo já visto em Dutra na década de 1950 volta com Itamar e depois FHC. abrir o mercado, garantir a especulação, o povo ter a sensação de compra e as divisas correrem para o exterior.

Qual a grande questão agora. O modelo de Lula olha pro sertão faminto, e o levanta contra o modelo explorador que detinha o status quo. A casa grande se revolta… 114 anos depois o estado resolve o problema da realocação dos escravos na sociedade. A casa grande não está gostando, as reformas estão ocorrendo… a unidade está ameaçada…

abraços,

um velho capitão

2014, uma resenha…

20 out

2014 vai passando e algumas coisas ficam certas.

O Brasil é um país fascista. Agora fica claro termos aceito duas ditaduras com o mesmo discurso.

Até o conto da carochinha que éramos um país sem preconceito não sustentou o muro dos narcisos, e toda a rede de informação.

A classe média e a classe alta, aceitou de vez existir a guerra civil. Todavia, para ela, isso é culpa do PT.

Descobrimos que somos um país de ignorantes. Impossível aceitar alguém falar que “bom era na ditadura”

E nossa televisão é o câncer que desde sempre nos atormenta a alma. Vale a pena relembrar “muito além do cidadão Kane” produzido em 1993 pela BBC.

2014, mostrou-nos que essa mesma televisão que atormenta e mente é a que joga com processo democrático apenas visando lucro.

Elegemos o pior congresso em 50 anos. Parabéns Brasil… Se o PT pede para não voltarmos ao que era antes, o governo de merda do PSDB… Fizemos pior. Elegemos um congresso tal qual o que favoreceu e apoiou o golpe militar de 1964.

Queria uma melhoria de fato. Votaria em qualquer pessoa séria que tivesse na oposição da Dilma… Acho que a arrogância do partidão cansou. Ad visto LL e o poste.

Em 2014 conhecemos os piores candidatos à presidência, nada melhor que as últimas… Mas em 12 anos, não surgiu naaaaada de novo. Nem o Psol aparece de fato como novo. Exceto a coerência, ética e política de Freixo e Willys. Talvez esses dois sejam o caminho. Entretanto, ainda tenho medo do aparelhamento que eles carregam. Mesmo problema do PT.

Está difícil…

Abraços,
Um velho capitão.